Samba em Foz: história, resistência e encontro com a ancestralidade africana
Foz do Iguaçu possui uma tradição sambista rica e pouco conhecida. No dia 1º de agosto, evento reúne mestres e guardiões da memória para debater o samba como patrimônio cultural na fronteira.
O samba nasceu muito antes do Carnaval e das avenidas. Era o encontro do povo negro para lembrar sua identidade e força, mesmo quando o Brasil insistia em fazê-lo esquecer. A palavra samba tem origem no termo bantu semba, que significa umbigada, aproximação e comunhão entre corpos. Mais que um gênero musical, o samba é uma tecnologia ancestral de encontro capaz de reunir pessoas para conversar sobre a realidade e refletir sobre a vida.
Toda manifestação cultural de matriz africana no Brasil sustenta dez valores civilizatórios afro-brasileiros: ancestralidade, oralidade, circularidade, memória, musicalidade, corporeidade, cooperação, energia vital, espiritualidade e comunitarismo. Existem mais de quinze tipos de samba, cada um preservando características comuns como a valorização do coletivo, a síncope rítmica, o protagonismo do corpo e a transmissão oral de conhecimentos.
Em Foz do Iguaçu, a tradição está no samba de terreiro, também chamado de samba de quadra — o samba das escolas de samba. Segundo Seu Raimundo, músico e percussionista, a história do samba em Foz é marcada por escolas como Clara Guerreira, Unidos do Maracanã e Império das Cataratas. A única escola de samba sobrevivente e resistente é a Mocidade Unida do Porto Meira, que continua exercendo seu papel junto à comunidade.
Mãe Edna de Baru, yalorixá do Ilê Baru, chegou em Foz no final dos anos 80 e acompanhou a escola Clara Guerreira e os sambas da Tia Maria. Ela idealizou a Roda de Samba do Ilê Baru, que em apenas três anos chega à sua 26ª edição. "A Roda de Samba do Ilê é uma forma de retomar a alegria e o bem viver daqueles tempos", afirma.
A Velha Guarda do samba representa continuidade, ancestralidade e compromisso com o futuro. Nas tradições africanas, quem envelhece torna-se guardião da memória coletiva. Quando a bateria interrompe o toque para aplaudir a chegada de um sambista da Velha Guarda, aprende-se uma lição africana: um povo só constrói futuro quando reverencia quem carrega sua memória.
No dia 1º de agosto, às 14h30, a Roda de Samba do Ilê Baru promove o bate-papo "O Samba como Patrimônio, Memória e Resistência Cultural na Fronteira". O evento reúne Mãe Edna e Mestre Rubinho, presidente da Mocidade Unida do Porto Meira, com mediação de Flávia Dorneles. A conversa antecede apresentações culturais, samba, quitutes, caldos, cerveja e caipirinhas. É necessária aquisição antecipada de ingresso para participar.
O bate-papo integra o projeto Encontros de Orí — Experiências Ancestrais e Rotas Negras da Fronteira, realizado pela ASCAF (Associação da Segurança e Cultura Ambiental de Foz do Iguaçu), que chega à sua quarta edição e acontece entre 30 de julho e datas posteriores.
Com informações de H2FOZ


